COLUNA DO PROFESSOR WALTERLI LIMA: Quando eu partir…

Quando eu partir, flores serão colocadas ao meu lado, num confronto sutil entre perfume e tristeza.

 

Os meus, que em mim se refletem, em pranto, contemplarão pela última vez a luz opaca do meu semblante, ainda relutante em se despedir.

 

Os poucos amigos que resistiram aos desencontros do tempo — pois saibam, a vida é uma estrada de encontros e desencontros —, com testas enrugadas pelo espanto que a morte traz, lamentarão minha partida.

 

Relembrarão os momentos vividos, revivendo as lembranças que o tempo ainda não apagou.

 

Por breves instantes, meus feitos serão exaltados, e meus muitos defeitos relegados a um breve esquecimento.

 

Em algum lugar, alguém abrirá meus livros numa busca inútil por mim, mas eu já não estarei mais alí.

 

Ao final do ato fúnebre, todos retornarão às suas casas, entregues inevitavelmente à rotina.

No meu quintal, as árvores, sacudidas pelo vento, darão abrigo aos pássaros, que cantarão alegremente ao amanhecer, sem notar minha ausência.

 

Os amigos farão novos amigos, e as crianças, distraídas, darão gargalhadas diante da televisão, na mesma sala em que ontem ri tantas vezes.

 

Com o passar dos anos, serei lembrado em datas específicas, até o dia em que essas datas também sejam esquecidas.

 

E, quando o tempo se prolongar ainda mais e fizer de mim o que sempre faz, ninguém notará minha ausência, nem lembrará que um dia estive aqui.

 

— Saibam, meus amigos, que é assim que a vida inevitavelmente se faz.

 

Quando eu partir…

 

Walterli Lima.

 

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