Paisagem Diária
A tênue corrente de água parece apagar o sol.
Este sol, com sua antiga luz, é a única luz que conheço.
Ainda que eu viajasse aos confins da Terra, seria esta mesma claridade a repousar sobre meus olhos, esta luz que ao entardecer se inclina para o vermelho e derrama sua cor sobre o rio.
Este é o nosso lar.
Todo o resto é mistério.
Acima de mim um punhado de estrelas basta ao olhar.
Para além delas, anos-luz de distância e solidão, há constelações, galáxias, bilhões e bilhões de sóis e buracos negros curvando o tecido do universo.
Eu, na minha pequenez, curvo-me diante da paisagem diária do rio, como quem reverencia aquilo que jamais poderá compreender.
E mesmo se conhecesse todos os segredos do infinito, ainda faltaria a mim tantos outros mistérios.
A essência humana.
Ah, a essência humana.
A mesma que cultiva jardins e semeia campos de batalha.
A mesma que contempla o voo dos pássaros e reduz florestas a cinzas.
A mesma que reverencia a chuva e destrói os rios.
A mesma que aprende a dizer “eu te amo” e sem deixar de ser humana também aprende a matar.
Contemplo os abismos do universo que deslocam meus pensamentos para uma sensação de vazio, mas nenhum de seus abismos não me parece tão profundo quanto este que carregamos dentro de nós.
A desconhecida essência humana, onde pulsa fragmentos de matéria orgânica que chamamos de vida.
Walterli Lima





