Professor Walterli Lima
Diante do céu avermelhado, o dia se despede.
Abaixo das sombras dos montes resta para mim uma solidão acompanhada, cercada de gente por todos os lados:
do eco dos passos na rua,
da cacofonia dos versos nos livros,
da prosa despretensiosa ao fim do dia.
Amigos? Nunca se tem de verdade.
O amor? Sempre inalcançável.
Falam de uma tal realização pessoal,
mas ela nunca chega.
Plenitude, talvez, habite apenas os loucos, trancados nos quartos dos hospícios, indiferentes à própria psicose.
Para nós, nunca.
Sempre falta algo: o ponto final, o pingo no “i”,
uma peça fora do lugar aqui,
uma ausência inatingível acolá.
Religião, dinheiro, trabalho.
Sempre buscamos satisfação fora do que já existe em nós, talvez reflexo da nossa incompletude.
Ao trabalho, entrego meu tempo, mais por medo do tédio do que da fome.
E quando as coisas não vão bem, curvo-me sobre os joelhos e espero compaixão.
E escrevo estes versos como fuga,
numa tentativa de escapar da realidade oca que me persegue, enquanto meu corpo, cansado e gasto pelos dias, pesa sobre mim.
Quero, ao menos, sem titubear, acreditar na imortalidade da alma.
Pois tal ideia nos projeta para além da realidade vazia do presente, fazendo-nos mais que um cão abandonado à própria sorte ou outro animal qualquer abatido sem piedade.
Engana-se quem imagina solidão como sinônimo de estar só.
Solidão acompanhada é saber ouvir a própria voz em meio aos gritos das multidões eufóricas.
É encontrar música nos silêncios e deles compor sinfonias inteiras.
É viajar o mundo inteiro
sem tirar os olhos de sua janela.
Solidão é também uma forma de liberdade.
Mesmo cercado por tantos, não abdico de estar só, pois quem não suporta sua própria solidão acaba sempre por depender do desconhecido.





